Cooperativas de reciclagem pedem mais reconhecimento público
Por Gabriela Borges · Sex, 19 de junho · 3 min de leitura

A reciclagem é uma das principais ferramentas para reduzir os impactos ambientais causados pelo excesso de resíduos e proteger a saúde da população. Quando materiais recicláveis deixam de ir para aterros, rios e ruas, diminuem os riscos de contaminação do solo e da água, a proliferação de doenças e a emissão de gases que contribuem para as mudanças climáticas.
Há pessoas cuidando do lixo que a maioria da população não quer ou não consegue cuidar, garantindo que ele tenha um destino adequado. Para responder a perguntas sobre o destino dos resíduos, gestores, consultores e agentes de desenvolvimento participaram da Jornada Desafio Pimp, promovida pelo Sebrae em São Paulo. A imersão levou o grupo para dentro de cooperativas de reciclagem para conhecer experiências e revelar o trabalho diário dos catadores que transformam resíduos em renda, inclusão social e impacto ambiental.
Na Cooperativa Viver Bem, fundada em 2004, chegam mensalmente entre 250 e 300 toneladas de resíduos. Cerca de 160 toneladas são efetivamente aproveitadas. O restante é descartado por contaminação ou separação inadequada, o que significa que até 43% do material recebido pode acabar em aterros sanitários.
Para a presidente da Viver Bem, Tereza Montenegro, um dos principais desafios está no acesso à assessoria técnica e à formação continuada das lideranças. “Deveria haver assessoria técnica desde o berço das cooperativas. Nem todas contam com pessoas que têm formação ou informação para gerir o negócio”, afirmou. A cooperativa também enfrenta gargalos como o recebimento de embalagens sem separação adequada e sem limpeza prévia.
A cooperativa atua em projetos de logística reversa com empresas como Natura, O Boticário e Havaianas, trabalha com créditos de reciclagem certificados e desenvolve ações relacionadas à certificação de carbono, sendo referência nacional em rastreabilidade dos resíduos.
Geane Fonseca de Souza trabalha na cooperativa há pouco mais de dois anos. “Hoje consigo acompanhar mais a minha família e organizar melhor minha rotina com meus filhos. E gosto do que faço porque sei que estou contribuindo para o meio ambiente”, disse. Ao lado dela está Isabel de Fátima, que há 15 anos trabalha na triagem. “Quando o lixo vai parar na rua, ele entope bueiros, rios e córregos. Aqui a gente consegue reaproveitar muita coisa e evitar esses problemas”, afirmou.
Fundada em 1989, a Coopamare é considerada a cooperativa de catadores mais antiga do Brasil. Instalada sob o Viaduto Paulo VI, em Pinheiros, processa cerca de 100 toneladas de materiais recicláveis por mês. Walison Borges encontrou na cooperativa uma oportunidade de transformação. “Eu vivi muita coisa ruim quando era mais novo. A cooperativa me deu uma oportunidade e eu agarrei”, disse. Um dos principais desafios apontados por ele é a baixa qualidade dos resíduos recebidos.
Roberta Marca, consultora do Sebrae Mato Grosso do Sul, afirmou que a experiência mudou sua percepção sobre o trabalho dos catadores. “Quando você veste a camisa e vai para a rua, sente o peso do carrinho, o esforço físico e até a forma como as pessoas enxergam os catadores”, disse. A consultora Itamara Kennerly, do Sebrae Amazonas, destacou a importância da gestão para a sustentabilidade das cooperativas. “A gente percebe que não basta coletar e separar materiais. Existe toda uma estrutura de gestão, organização e liderança que precisa funcionar”, afirmou.
Walter Souza, chefe da Divisão de Saneamento da Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, destacou a importância da integração entre cooperativas, consultores e poder público. Representantes do setor defendem que os catadores ainda recebem pouco reconhecimento pelo serviço que prestam às cidades.