sexta-feira, abril 24

    Brasília completa 66 anos conhecida como centro do poder político, mas foi na música que a capital encontrou uma de suas expressões mais marcantes. Diferentes gerações transformaram o cotidiano da cidade em som, revelando estilos e realidades que coexistem no mesmo território.

    Nos anos 1980, em meio ao fim da Ditadura Militar no Brasil, jovens artistas encontraram no rock uma forma de expressão. Foi nesse contexto que surgiu a banda Plebe Rude. O vocalista e guitarrista Philippe Seabra afirma que o movimento punk deu o norte ao grupo. “Não tinha como ficar alheio ao que estava acontecendo. Brasília naquela época não nos dava escolha. A banda nasceu dessa urgência”, completa.

    Para Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, a cena nasceu de uma vivência coletiva. “O Capital começou junto com as outras bandas da nossa geração, como Legião Urbana e Plebe Rude. Saíamos sempre juntos e fazíamos shows”, relembra. Ele aponta o tédio e o contexto do fim do regime militar como fatores. “Havia uma sensação de que uma mudança era possível.” As letras falavam do dia a dia e das angústias, sem que eles soubessem do alcance nacional que teriam.

    Dinho afirma que o reconhecimento veio de forma gradual. “Em 1986, estávamos vendendo centenas de milhares de discos.” Para ele, Brasília moldou o rock nacional. “Não se pode falar do rock brasileiro sem falar do rock de Brasília. As melhores bandas do país são de Brasília.”

    Décadas depois, Philippe Seabra diz que músicas como “Até Quando Esperar” se tornaram hinos. “Infelizmente, as letras ainda dialogam com o presente porque muita coisa não mudou no Brasil.” A relação com a cidade é de amor e ódio, sintetizada na canção “Brasília”.

    Nos anos 1990, o hip-hop ampliou o retrato da capital. O grupo Câmbio Negro trouxe a vivência das periferias. O rapper X afirma: “Quisemos retratar a realidade do povo periférico, pobre e marginalizado. A imagem que queríamos construir era de protesto e conscientização, contrastando com a visão da capital.” Ele relembra o choque com a percepção externa. “Muita gente achava que conhecíamos políticos, mas nossa realidade era outra. Cresci em barraco de madeira, sem água encanada.”

    A trajetória musical de Brasília revela uma cidade além da imagem institucional. Enquanto o rock nasceu entre jovens do Plano Piloto, o rap expôs a realidade de regiões como Ceilândia. Essa diversidade de vozes mostra contrastes e transformações que seguem em curso.

    Gabriela Borges
    Gabriela Borges

    Administradora de empresas pela Faculdade Alfa, Gabriela Borges (2000) é goiana de nascimento e colunista de negócios, gestão e empreendedorismo no portal OiEmpreendedores.com.br, unindo conhecimento acadêmico e visão estratégica.