segunda-feira, abril 20

    Augusto Cury, 67, nega ser um escritor de autoajuda, mesmo com seus livros nas prateleiras do gênero. Também afirma não ser coach, mas viaja o mundo dando palestras e vende cursos online sobre gestão de sentimentos.

    Médico de formação, ele se identifica como o psiquiatra mais lido do mundo e se diz um produtor de conhecimento. É autor da Teoria da Inteligência Multifocal, um método para entender a mente humana que não é reconhecido por pesquisadores da área.

    No início deste mês, Cury filiou-se ao Avante e anunciou sua candidatura à Presidência da República. Ele defende uma reforma do Judiciário, critica o discurso “bandido bom é bandido morto” e quer incentivar o empreendedorismo.

    “Eu vejo o país radicalizado, que está sequestrado por duas famílias: a família Lula da Silva e a família Bolsonaro”, disse Cury em entrevista. “O que eu sou? Eu sou de centro. Sou mente capitalista e com um coração que cuida dos desvalidos.”

    Ele quer preparar o Brasil para o que chama de “grande tsunami da robótica e da inteligência artificial”, propondo a criação de clubes de empreendedorismo.

    Nas eleições de 2024, o discurso empreendedor foi encarnado em São Paulo pelo influenciador Pablo Marçal (União Brasil). Cury disse que passou a conhecê-lo há cerca de quatro meses. “Não me inspirei em Marçal, porque tenho uma política de 0% de ataque pessoal”, afirmou.

    O pré-candidato diz que, diante da crise do Banco Master, provocaria o Congresso para uma reforma do Judiciário, com mandatos de até oito anos para ministros do STF. Na pesquisa Genial/Quaest mais recente, Cury tem 2% das intenções de voto.

    Pedro Lima, professor de ciência política da UFRJ, avalia: “Não vejo muita margem para crescimento no atual cenário. Cury é mais outsider do que foi Bolsonaro e não tem a mesma performance impactante de Marçal.”

    Natural de Colina (SP), Cury nasceu em uma família pobre. Ele lembra que não era bom aluno e que teve uma crise depressiva na faculdade. Morando no interior de São Paulo, é casado e pai de três filhas. Diz ser um ex-ateu que se tornou um “cristão sem fronteiras”.

    Tornou-se um best-seller internacional, com livros publicados em 70 países e mais de 40 milhões de exemplares vendidos, segundo suas contas. Um dos sucessos é “O Vendedor de Sonhos: O Chamado”, de 2008, que critica o sistema capitalista. Cury admite a contradição entre o livro e seu atual discurso empreendedor. Há uma adaptação do livro na Netflix.

    Sobre a frase “bandido bom é bandido morto”, o psiquiatra disse: “É uma ideia estúpida, não altruísta. O problema não é encarcerar, é encarcerar mal, não chegar antes do crime.”

    Toda sua obra se baseia na Teoria da Inteligência Multifocal, criada por ele em 1999. O estudo da teoria teria como objetivo a gestão das emoções. Em seu site, Cury vende cursos sobre o tema por R$ 500.

    No fim do primeiro capítulo de seu livro, ele escreveu que a Inteligência Multifocal traria soluções para o autismo. “Muitos casos de doenças psíquicas de difícil tratamento, inclusive de pacientes autistas, têm sido resolvidos”, escreveu.

    José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), comemora a pré-candidatura e diz considerar que a teoria tem embasamento científico. “Ele tem caráter e é um intelectual. Eu votaria nele”, afirmou.

    A reportagem consultou cinco psiquiatras após a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) não se manifestar. Todos afirmaram que a teoria não tem embasamento científico e não a adotam na clínica.

    “Não tem validação científica. Ansiedade, depressão, tudo isso é decorrente do nada existencial”, disse Paulo Pavão, professor de psiquiatria da Uerj. “Eu não tenho nada contra a pessoa, mas é para vender livro.”

    Rodrigo Martins Leite, do Instituto de Psiquiatria da USP, afirmou: “Se essa teoria curasse o autismo, ele teria o Nobel de Medicina.” Adriano Aguiar, doutor pela Universidade de Genebra, disse que em caso de crise suicida a pessoa deve procurar ajuda médica profissional, e não vídeos na internet.

    O professor da USP Wagner Gattaz enviou um recado: “Que eu saiba o pré-candidato é um escritor profícuo, mas não é pesquisador nem cientista. Portanto, mesmo com a genialidade que ele possa ter, criar uma teoria do nada é bastante arriscado.”

    Cury rebate as críticas. Diz que algumas pessoas não estudaram adequadamente sua teoria, que é aplicada por milhares de pessoas e teria comprovação científica. Ele compara sua teoria com a psicanálise e a Terapia Cognitivo-Comportamental, abordagens que também são questionadas por alguns.

    “A Teoria da Inteligência Multifocal não é verdadeira como teoria”, afirmou Cury. “Em determinados aspectos, ela tem realmente uma validação. Mas não fico falando ‘minha teoria é verdadeira’. Quem aplica, quem estuda, quem pesquisa é que vai dar o direcionamento.”

    Sobre o autismo, ele diz falar em “resolução” e tratamento, não em “cura”. “Produzir conhecimento neste país que não valoriza o cientista é um parto”, completou.

    Gabriela Borges
    Gabriela Borges

    Administradora de empresas pela Faculdade Alfa, Gabriela Borges (2000) é goiana de nascimento e colunista de negócios, gestão e empreendedorismo no portal OiEmpreendedores.com.br, unindo conhecimento acadêmico e visão estratégica.