sábado, abril 25

    A transformação de clubes em SAF se tornou uma tendência forte no futebol brasileiro. O modelo vem acompanhado de promessas de profissionalização, dinheiro novo e gestão moderna. No entanto, os fatos mais recentes mostram que ele, por si só, não garante sucesso. O alerta nunca foi tão claro para o Fluminense.

    Dois exemplos chamam a atenção. Um deles acaba de ganhar um capítulo mais grave. O Vasco apostou em um investidor estrangeiro. Viveu um início de entusiasmo, mas mergulhou em uma crise institucional e financeira após o colapso da relação com a 777 Partners. O clube ainda busca uma solução e tenta reorganizar a estrutura fragilizada.

    No Botafogo, o cenário que parecia sólido desmoronou de forma ainda mais ruidosa. Depois de um período de euforia com investimentos, títulos e projeção internacional, o clube entrou em turbulência. O ponto mais emblemático dessa crise veio nesta semana: o afastamento de John Textor do comando da SAF, por decisão arbitral. O movimento expõe o conflito interno e a fragilidade da governança em um momento de necessidade de estabilidade.

    Para entender por que projetos promissores chegam a esse ponto, a reportagem ouviu o especialista em reestruturação empresarial Hugo Cayuela, sócio da RGF Associados. A análise dele ajuda a colocar os pés no chão.

    Hugo Cayuela resume: ‘A SAF resolve o problema de forma, mas não resolve o problema de substância’. Na prática, mudar o CNPJ não corrige falhas históricas de gestão.

    Segundo Cayuela, o erro mais comum é o crescimento sem sustentação. Projetos recebem investimento, aceleram despesas e ganham visibilidade, mas não constroem processos, controles e governança compatíveis. Mais cedo ou mais tarde, o resultado aparece em forma de crise.

    Há ainda um fator que os casos recentes escancaram: o conflito entre sócios. Quando divergências internas se misturam a dificuldades financeiras, a gestão trava. Foi isso que o episódio envolvendo John Textor evidenciou no Botafogo.

    O diagnóstico é direto. Dinheiro ajuda, mas não resolve sozinho. Sem gestão eficiente, controle de gastos, planejamento esportivo e alinhamento societário, qualquer projeto, com ou sem SAF, fica vulnerável.

    É nesse cenário que o Fluminense precisa tomar sua decisão. O clube flerta com o modelo em um momento em que os exemplos do mercado brasileiro deixam de ser promessas e se tornam alertas concretos.

    A SAF pode ser uma oportunidade. Mas também pode amplificar problemas quando mal estruturada. Vasco e Botafogo mostram, cada um à sua maneira, que o risco não está no modelo em si, mas na forma como ele é executado.

    No futebol brasileiro, onde a pressa atropela o planejamento, o Fluminense tem uma vantagem rara: observar antes de agir. Diante do que está acontecendo, ignorar esses sinais pode custar caro.

    Gabriela Borges
    Gabriela Borges

    Administradora de empresas pela Faculdade Alfa, Gabriela Borges (2000) é goiana de nascimento e colunista de negócios, gestão e empreendedorismo no portal OiEmpreendedores.com.br, unindo conhecimento acadêmico e visão estratégica.