Angela Davis: Supremacistas brancos saíram do armário
Por Gabriela Borges · Sex, 24 de julho · 3 min de leitura
Em visita ao Brasil pela décima vez, a filósofa e ativista Angela Davis afirmou que a supremacia branca nos Estados Unidos não está em ascensão, mas sim que seus defensores “apenas saíram do armário”. A declaração foi dada em entrevista no Rio de Janeiro, antes de sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde é um dos nomes mais aguardados.
Davis, que é uma das principais referências do feminismo e do movimento negro, participa de um evento paralelo no sábado (25), às 18h, no Sesc Caborê, com capacidade para 700 pessoas. Ela estava acompanhada da acadêmica Gina Dent, sua companheira de vida e de projetos. Juntas, elas escrevem um livro sobre jazz e defendem o fim do sistema carcerário.
Questionada sobre a influência da supremacia branca na política americana, Davis afirmou que o grupo faz parte da história do país, mas que o presidente Donald Trump não representa a maioria da população. “As estatísticas indicam que mal um terço de toda a população o apoia”, disse. Para ela, a volta de Trump se deve ao fato de muitas pessoas terem deixado de votar.
Abolição das prisões
Davis defendeu a abolição do sistema prisional e a justiça transformativa. Ela disse que essa abordagem não minimiza o sofrimento das vítimas de crimes violentos, mas busca atender às necessidades de quem foi vitimizado e também entender como a sociedade gera as condições que levam à violência. “O único modo de fazer isso é atendendo às necessidades dos seres humanos, encorajando a imaginação por meio da educação”, afirmou.
A ativista criticou o uso de reconhecimento facial, inteligência artificial e algoritmos preditivos na segurança pública. Para ela, a base dessas tecnologias é o racismo estrutural. “O policiamento preditivo é projetado para manter as estruturas sociais e econômicas como estão”, disse.
Movimento progressista
Davis avaliou que o movimento “Defund the Police” fracassou em grande parte por causa de intervenções conservadoras, mas que as bases foram lançadas. Sobre a causa palestina, ela afirmou que a tentativa de equiparar antissemitismo à solidariedade palestina é uma tática usada por conservadores. “É a primeira vez que vemos essa expressão, e é lamentável ter sido necessária a destruição genocida de Gaza para que essa nova sensibilidade política emergisse”, disse.
A filósofa também comentou as decisões da Suprema Corte dos EUA, que restringiu ações afirmativas e revogou proteções ao aborto. Ela afirmou que a maioria da população americana acredita no direito ao aborto, mas que a Corte foi escolhida por Trump. “Nenhuma grande virada política jamais veio de um presidente”, afirmou, defendendo a organização popular como motor de mudanças.
Por fim, Davis disse que a maior fraqueza do movimento progressista atual é a falta de organização. “Estamos buscando novas formações. Acho triste que não as tenhamos encontrado ainda”, concluiu.