sábado, abril 11

    O futebol brasileiro tem mais uma situação típica: a norma existe, o fato acontece, o julgamento vem e tudo termina num meio-termo confortável, onde ninguém sai realmente prejudicado.

    Se alguém ainda tinha dúvida sobre o grau de tolerância no futebol brasileiro, o episódio envolvendo Memphis Depay tratou de esclarecer. Pode usar celular no banco de reservas, desde que não vire moda ou que ninguém resolva levar muito a sério.

    O atacante do Corinthians foi flagrado mexendo no telefone durante o jogo contra o Flamengo. A cena misturou tédio, modernidade e aquele espírito de só uma olhadinha. O caso foi parar no STJD, como costuma acontecer quando o futebol decide discutir algo fora das quatro linhas.

    A princípio, cogitou-se uma multa de mil reais. Um valor simbólico, práticamente o preço de um jantar em dia de concentração europeia. Mas nem isso vingou. No fim, o tribunal resolveu advertir o jogador. Foi uma advertência. Aquela bronca institucional que não dói no bolso, não tira ponto e não assusta nem juvenil.

    E é aí que está o ponto curioso. Se a punição por usar celular durante a partida é uma simples advertência, o recado pode ser interpretado de várias formas. A mais provável delas é: não pode, mas também não acontece nada demais.

    Abre-se, com isso, um precedente informal. O banco de reservas, que já foi espaço de tensão, prancheta e olhar fixo no jogo, corre o risco de virar uma extensão do sofá de casa. Hoje é o Depay conferindo algo no telefone. Amanhã pode ser outro jogador respondendo mensagem, vendo lance repetido ou até acompanhando outro jogo.

    Claro, ninguém vai admitir isso oficialmente. O regulamento segue dizendo que não pode. A CBF continua proibindo. E os clubes, em tese, devem controlar. Mas a prática costuma ter vida própria quando a punição não acompanha a regra.

    No fim, o futebol brasileiro ganha mais uma daquelas situações típicas. Tudo termina num meio-termo confortável, onde ninguém sai realmente prejudicado e talvez nem muito convencido.

    Se depender desse caso, o recado é claro, ainda que não declarado. O problema não é pegar o celular. É só não deixar aparecer demais.

    O caso também levanta a questão sobre como as regras são aplicadas de forma diferente no dia a dia dos campeonatos. Outros jogadores já foram vistos em situações similares, mas sem a mesma repercussão ou abertura de processo. Isso mostra uma certa inconsistência na fiscalização.

    Além disso, a discussão sobre o uso de tecnologia durante os jogos não é nova. Treinadores usam tablets para analisar lances, e a comunicação com a comissão técnica na arquibancada é comum. O limite do que é permitido para os reservas, porém, parece permanecer numa área cinzenta.

    Gabriela Borges

    Administradora de empresas pela Faculdade Alfa, Gabriela Borges (2000) é goiana de nascimento e colunista de negócios, gestão e empreendedorismo no portal OiEmpreendedores.com.br, unindo conhecimento acadêmico e visão estratégica.