sexta-feira, março 27

    O Guangzhou FC, fundado em 1954 na cidade chinesa de mesmo nome, era conhecido como “Tigres do Sul da China”. O clube surgiu como uma representação do governo local, uma prática comum no futebol do país.

    A equipe só se tornou profissional em 1993, 39 anos após sua criação. Em sua primeira fase, alternou entre acesso e rebaixamento entre a primeira e a segunda divisão, sendo um coadjuvante em uma importante praça financeira.

    Em fevereiro de 2010, a situação piorou. O Guangzhou foi rebaixado à segunda divisão como punição por um esquema de manipulação de resultados identificado em 2006. Uma ampla investigação do Ministério de Segurança Pública chinês levou à prisão de dirigentes do clube, ex-vice-presidentes da federação, um árbitro Fifa e jogadores da seleção nacional.

    Com a administração desmantelada, o clube foi colocado à venda. Foi quando apareceu a empresa que definiria seu destino: a Evergrande.

    Ainda em 2010, o Guangzhou foi comprado por 100 milhões de yuans, algo próximo a R$ 25 milhões na cotação da época, e passou a se chamar Guangzhou Evergrande. A nova proprietária era uma gigante do setor imobiliário com origens na mesma cidade.

    O responsável pela aquisição foi Xu Jiayin, fundador da Evergrande. Sob seu comando, a empresa acumulou ativos de 150 bilhões de dólares em uma década, aproveitando o crescimento urbano da China. Jiayin chegou a ser o homem mais rico do país em 2017.

    Com os grandes investimentos, o clube ganhou o apelido de “Chelsea da Ásia”. A reformulação começou ainda na segunda divisão, com contratações de peso no meio de 2010.

    O time trouxe estrelas do futebol local, como Sun Xiang e Zheng Zhi, e também o brasileiro Muriqui, ex-Atlético-MG e Vasco. O atacante revelou que hesitou no início, mas aceitou ao conhecer o projeto ambicioso do clube.

    No final daquele ano, o Guangzhou conquistou o título da segunda divisão e retornou à elite. Os anos seguintes foram marcados por mais contratações renomadas e muitas conquistas.

    O elenco passou a contar com jogadores como Conca (ex-Fluminense), Lucas Barrios (ex-Grêmio), Paulinho (ex-Corinthians), Elkeson, Ricardo Goulart e Talisca. Muitos foram atraídos em momentos importantes de suas carreiras.

    O clube também investiu em treinadores de renome. Passaram pelo comando técnico os campeões mundiais Marcello Lippi, Fabio Cannavaro e o brasileiro Luiz Felipe Scolari.

    Os resultados vieram em forma de troféus. O Guangzhou venceu o Campeonato Chinês oito vezes (2011 a 2017 e 2019), a Liga dos Campeões da AFC em duas oportunidades (2013 e 2015), além de copas nacionais e supercopas. Felipão se tornou o técnico mais vencedor da história do clube.

    Em 2020, foi anunciado um projeto ousado: a construção de um estádio para 100 mil pessoas com formato de flor de lótus. O custo era estimado em 12 bilhões de yuans (cerca de R$ 8,9 bilhões na época), com inauguração prevista para 2022.

    Porém, o modelo de negócios da Evergrande, baseado em dívidas de grande porte, se tornou insustentável. A crise da empresa, que teve crescimento exponencial até 2020, impactou diretamente o clube.

    O técnico Luiz Felipe Scolari comentou a queda. “Quando a crise aconteceu na Evergrande, o clube foi muito impactado. Foi uma queda muito grande”, disse ao ge. Ele também lembrou com carinho da passagem: “Foi um dos melhores lugares que eu vivi. O carinho do povo era espetacular”.

    Com a falência da holding bilionária, o Guangzhou Evergrande, outrora heptacampeão consecutivo e maior time da China, foi forçado a fechar as portas, encerrando uma era de glórias no futebol asiático.

    Gabriela Borges
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    Administradora de empresas pela Faculdade Alfa, Gabriela Borges (2000) é goiana de nascimento e colunista de negócios, gestão e empreendedorismo no portal OiEmpreendedores.com.br, unindo conhecimento acadêmico e visão estratégica.